Thursday, January 5, 2012

O COLECIONADOR


I

Tá vendo esse piano forte? Não sei como foi parar aí.
Deve ter se infiltrado sorrateiramente no apartamento
como a manhã. Ou então, feito às vezes um passarinho,
deve ter aproveitado a desatenção de uma fresta de janela.
Acho mesmo que tem um pássaro clandestino
refugiado piano a dentro. Não parece ser forte,
canta com desafino, quem sabe um canarinho, misto.
Me indago, se não tivesse perdido a cauda,
seria menos franzino? E tem passarinho sem rabo?
Passarinho de rinha, coitado, enfim aposentado.
Pedindo pra não ser tocado. Pois, do contrário,
é do tipo masoquista, que só gorjeia se martelamos
com dedos destros ou tacanhos seus bicos pretos brancos.
E se uma bala perdida acertasse na sua cantoria?
Mas não me entendo dessas coisas de hoje em dia.
As coisas que sempre me interessam se perdem
nas recurvas dos dias, se é que ainda prosseguem vivas.
E assim, leio no banheiro as revistas pré-datadas
que há muito me mandaram, bem ciente, como jornalista,
que não existe coisa como notícia de ontem,
e que o novo é o mesmo de sempre desde que decretaram
que os dias andassem, ao invés de se misturarem.
se olhando parados como na eternidade.
De modo que, isolado em meu retiro involuntário,
acabei afeiçoado pelas coisas que há muito me visitaram
e depois nunca mais me abandonaram.
São meus coabitantes, meus sublocatários.
E faço cara feia se me chamam de colecionador.
Colecionador de coisas já fui, e se ainda fosse
devia conhecê-las com minúcia,
mas meu colecionismo hoje é de araque:
uma a uma não conheço nenhuma.
Meu gosto é do amontoado, do que não trouxe um nome.
E que, não tendo nome, também não tem brios de homem,
de modo que, se com elas cruzo e deixo de dar boa-tarde,
não acham em meu descaso ocasião de se contrariarem.
E elas são mesmo tantas que tantos nomes numa língua sozinha
não se guardavam. E então, assim redimidas
do tempo e do conhecimento,
como os homens antes das línguas,
é como se sempre dormissem e leves de sonho voassem.
E, se acaso apanho alguma em meio a num desses transes,
num desses relances
em você pergunta duas vezes
foi isso mesmo o que vi?,
a sacana abre a pestana só de manha,
para depois se esconder de novo
e, como um passarinho surpreendido,
prosseguir seu voo
do ponto em que o interrompi.
Mas tenho ao menos cultivado o cuidado em não deixar
alguma nova entrar.
Só o passarinho, mas ele não foi convidado.
Malas diretas, convites, mando o porteiro entregar
para os arrivistas do oitavo andar.
E essa é toda a caridade que tenho praticado,
e tanto mais desprendida,
quanto presto a gente que dela não necessita.
Todavia, a casa ainda assombrada de convivas
esquecidos de partir
está sempre um tanto escura e um tanto cheia.
Tão escura que eu mesmo às vezes me apago.
Quando a Moninha estava viva,
costumávamos dar duas giras
em torno do edifício,
quando era a hora
de ela fazer os seus ofícios. Agora,
silenciada a besta latidora, e eu e a tua mãe estranhados,
retornados os vizinhos ao sossego de antes das pelejas e latidos,
não saio porque não vejo mais recreio.
Prazeres tenho às forras aqui dentro.
Mas muito do que vocês chamam
traste ou entulho
(eu sou pouco velho mas não todo surdo),
já pede substituição ou conserto,
como o ventilador, reparou?
O pescoço torto como se sofresse
de um torcicolo ou de dor de dente.
E nem tudo dá só pra chamar
alguém subir pra arrumar.
É, acho que alguma hora
vou ter que sair e dar uma volta.


II
Mas entra, tira o agasalho.
O agasalho pinga porque pinga lá fora.
Põe ele atrás da porta.
Acordei agora e nem tive chance de passar no banho.
Ou olhar pro céu e julgar do tempo.
Todo mundo reclama do tempo
o tempo inteiro, deve ser só papo fiado,
senão alguém já tinha feito algo a respeito...
Faça chuva ou faça sol, é sempre a mesma ladainha,
as mulheres esconjurando o frio,
e os homens suando a cântaros.
Claro que tempo não é o mesmo que clima.
Não acredito nos catastrofistas,
mas já está na hora de alguém ceder.
Não me lembro de ter chamado você,
mas que bom te ver, seja bem-vindo,
meu filho favorito! Shalom e mais tudo de bom.
O que te arrastou para esse bairro de velhos
e ricos de baixa entrância,
esquecido dos percurso de recreio,
mas alvo primeiro do telemarketeiros
de seguro, e trajeto predileto das ambulâncias?
Terá confundido meu esconderijo
com a seção de achados e perdidos?
A chuva fina entrou pingando contigo dentro da casa.
E é por sua graça que sabemos
que ainda é outono, se temos
compartimentos seccionando o ano
como tínhamos antes do aquecimento.
E o casaco pendurado atrás da porta
lembra uma folha que não tarda
em ser também arrastada pelo vento.
Mas não tão cedo, te acomoda e fica um momento.
E ainda assim pinga. Você tem goteiras!
Mas será que pinga através do crivo
das frondas do outono quase ido
algum raio de luz que penetrasse
entre as gerações de folhas mortas
e com sua força renovadora aclarasse
retalhos inteiros da nossa existência
abafados entre as camadas do tempo?
É um poema meu, ou de algum outro boêmio,
diz do que perdemos, menos que para a morte,
que para o esquecimento.
Há quem diga que morremos da mesma morte,
seja no corpo, seja na memória dos outros.
Por isso, os cristãos acreditam em salvação pelo corpo.
O que seria bom, se não fosse simplesmente incrível.
Mas os gregos, menos transigentes,
acreditavam na salvação pela memória.
Consolação de segunda
e de segunda mão essa salvação delas pela glória,
mas pelo menos possível de fazer.
Imagino se os mortos pudessem nos dizer
o que pensam a respeito.
Estariam tão cobertos de folhas
que sua voz não se distinguiria daquelas das árvores.
De jeito que, se ouço o gemido do vento
e com ele o acompanhamento de instrumentos
que sussurra nas folhas,
posso jurar discernir às vezes,
as distintas vozes, as entonações, os maneirismos,
de tantos amigos que já são sombras.
Acho que sim, para nos preparar contra o olvido não é preciso
como um faraó juntar muita coisa.
Nem é preciso acumular muita força,
às vezes basta
um termo ou um modo de falar parecido,
um sonho na sesta do domingo,
às vezes uma visita inesperada.
O primeiro deus imortal teve que devorar o tempo
para não ser comido. Mas nós somos o seu alimento de direito,
e só a lembrança nos salva.
Todo mundo reclama todo o tempo do tempo,
é preciso alguém dar um jeito...
Mas deve ser triste o tempo, o trabalho da desmemória,
deve ser triste como perder aquilo de que não se gosta.
Porque o remorso, o irmão do meio,
sempre meio esquecido,
o remorso ainda é melhorzinho que o olvido.
E lembrar não é só coisa de velho.
Aliás, é velho quando se tem por conselheira
uma memória dormideira.
Nem é hobby de colecionador.
A memória é o humano trabalho
de abrir buracos na trama dos eventos,
deixando escapar uma manhã da infância,
por exemplo, cheiro de café coado
sobre o fogão a lenha, e o sabor
daquelas manhãs tão frias
que me crispavam os músculos de criança
das costas até a mandíbula, e, menino, como doía!
Ou melhor, dói ainda, o prego na carne, na parede...
E as folhas da mata retesas pela geada
afiavam as agulhas do vento.
E a dor cada vez mais forte,
e o cheiro cada vez mais intenso,
e o buraco cada vez mais fundo,
e sempre a capa mais rasa,
e sempre a trama mais esgarçada,
até que da trama não reste nada.
E nos sejam finalmente devolvidos, antes que seja tarde,
ao custo prazeroso do esforço da lembrança,
mundos inteiros que perdemos deixando-nos à distância
se deixarmos de esquecer, retrazendo-os à nossa vizinhança.
Será, quem sabe, a eternidade?
Ou um tempo verdadeiramente novo
sem o engodo dos eternos retornos?
Se for, combinamos de ir juntos.
Quem sabe a idéia empolga
e deixe então o mundo de ficar dando voltas
em torno do mesmo assunto.

III

Mas não tenho medo da morte, como nunca
pude crer em deus.
Diz que ele escolhe os seus,
emtão devo ter ficado do lado de fora da coleção.
Também falam que deus prova igualmente
seu servo e quem não crê nele.
Se for verdade, me intriga
a ideia de ter carregado uma escuta
sem o saber, por todo lado,
e não sei se rio ou me embaraço
quando penso também ter sido assistido
nos meus momentos de maior loucura...
Tanto pior ou melhor, tenho vergonha
de pedir para deus as minhas coisas,
acho que não mereço ganhar nada sem trabalho.
E se faço algo errado, procuro eu mesmo compensação.
Então deus pra mim não ia servir pra muita coisa.
Quem sabe deus esteja mesmo presente,
só não queira perturbar a gente,
e até nos ouça chorar e mantém-se
respeitosamente silente,
embora no fundo se lamente
por sermos sempre tão ridículos,
e, na verdade, em cada uma dessas ocasiões,
nada pudesse fazer a respeito dos nossos faniquitos
nem das nossas tribulações.
Ah, eu tenho a respeito disso
uma teoria nova, também inacreditável,
mas que faz sentido.
Sustento que deus é um microeconomista
que faz conosco experiências de escolha racional.
Não temos como não ter apego a uma terra, uma moradia,
ou nos desejar uma vida mais distendida.
Mesmo um rato racionalmente esconde dos outros um resto de comida.
Mas então deus vem e nos bota amor
e nos vê fazer as coisas mais insensatas,
doar o que não foi merecido,
perder o que não foi contendido.
Ele deve ser um bocado bom em matemática
e por isso se atrapalha com a lógica equivocada
que permitiria entender por que,
pressionados por um mundo de escassez,
no qual de cada um só havia que esperar
a opção de ser egoísta, o amor, esse arroubo da irrazão,
nos liberta da lei natural e instintiva
da autopreservação.
Somos a loucura de um universo são.
Lembro da exemplar insanidade
daquele santo budista,
que, para dar de comer ao cão também faminto,
cortou e lhe serviu da sua própria carne...
E, no fim de tudo, a conclusão da pesquisa
sobre o amor, ensina ao deus da razão
que não existe verdadeiro saber
se desprovido de compaixão.
Amor que nos faz, porcos de ensaio,
mais nobres que as pérolas que nos jogaram.
Te parece cruelmente bárbaro?
Mas eu já tinha prevenido
que, segundo a minha premissa,
meu deus é um economista...
E é o quanto me arrisco a falar sobre ele.
Parece que medram cada vez mais seitas de última hora,
quanto mais se explica o mundo menos se entende!
Mas não sei bem, faz tempo que não vou lá fora,
quando tiver de ser,
vou dar uma volta.


IV

Tenho escrito. Admito:
falei tudo isso porque só agora me dei conta dessa vocação,
extemporaneamente ou por ser ela mesma temporã:
a de colecionador.
Colecionador não de coisas, mas de memórias.
Achei nesse monte de montanhas caóticas
uns remotos cadernos de colégio
em que garatujei meus primeiros versos.
Para mim, aquelas poesias eram a coisa mais linda,
eram capazes, imagine se fosse verdade...,
de justificar uma vida.
Meus sonhos tiritavam dentro daquela mochila.
Hoje sou todo prosa,
gosto mesmo é de contar histórias,
e nos meus romances contei memórias
de outra gente, inventadas ou plagiadas da vida.
Mas me ocorreu num desses dias,
que nunca falei sobre a minha infância,
e por isso há pouco te narrava as de outono.
E alguém escreveu, salvo engano,
o Paulo Mendes Campos, que a infância
só existe para ser recontada.
De criança fiz minha primeira coleção,
bem antes de virem os selos, as miniaturas, os amoricos.
A primeira coisa que colecionei
foram pinheiros.
Pinheiros que eram meus,
porque só eu sabia o nome deles.
E um ano de neve em Curitiba,
a pequena casa de madeira,
minha horta de morangos,
o zoo e a lenda de uma leoa perdida,
meu pai janota e deliciosamente cínico,
minha mãe telepática,
minha irmã boa boa e os seus bichos,
estão todos aqui entre as minhas coisas
e compõem o arcabouço profundo dos eventos
no qual os demais apenas foram se encaixando.
No mais, as alegrias de uma vida foram indo ou ficando.
Você me conhece, não sei me queixar,
nem gosto de falar de coisas tristes.
Mas é difícil ser sozinho.
É difícil, mas se aprende.
Não sinto falta de mulher.
E para mim, a tua mãe foi sempre
(e deve sentir esquisito para você ouvir isso,
porque você tem nela amor de filho),
sempre foi a pele, o gosto,
o ideal de matéria a que eu sempre aspirei
e porque tão carnalmente perfeito
foi também o metro do desejo
com que pesei às vezes a contra-gosto
todos os meus outros encontros.
Estranho que hoje nos desencontramos
e sejamos como estranhos.
Mas saudades da felicidade que tivemos
não tenho, porque não mais sinto
necessidade de felicidade.
E felicidade de verdade só existe na carne,
não no espírito.
Nem é a felicidade ou a necessidade o motor da gente.
O que move o homem é não poder não ser,
simplesmente.
E continuar a ser,
sozinho ou dando voltas.
Agora, o que mais corrói,
não é que a Moninha me abandone,
mas que às vezes deslembre seu nome.
Fora com os fantasmas!
Ou eles ou eu saio de casa.
Quem sabe numa manhã mais clara...


V

Mas se é menos sozinho
quando se tem amor num filho.
Mesmo quando mora longe,
mesmo quando se esconde.
E alegria você sempre me trouxe,
mesmo sem querer.
Lembro você rapazinho,
quando passava e as vizinhas
se cutucavam, como é bonito!
E que orgulho besta esse
de ter um filho que é bonito.
Mais que ele ser um erudito,
um doutor ou um cara bem-sucedido...
Ter sucesso nesses tempos estranhamente quer dizer
ser rico, me pergunto por quê,
não teria tido êxito a despeito
de ter se tornado um homem de bem,
embora sem cultura ou dinheiro ou título?
Mas, voltando a meu orgulho besta por tua beleza,
talvez seja porque mérito
maior que o de ter mérito
é não precisar dele e ganhar do acaso
um bom coração sem dar-se ao trabalho,
e a beleza por recompensa.
Mas você também teve os seus casos,
tristes ou ditosos,
e carrega nos traços os cursos do amor,
caminhos de serpente, sempre
tão tortuosos, que entortam a gente.
E de novo, que maior bruxo que o amor?,
o pai do impossível, o amor que conseguiu transpor
aquela carne tão dura que eu era
numa coisa como esta, flácida e terna...
Sempre digo que é você
meu filho favorito, não porque não tive outros,
mas porque foi sempre o mais merecedor,
e mais bonito na essência que oculta humilde
que no físico,
mas este não dá para esconder,
então ao menos não te cabe ser tão tímido...
Não depois dos trinta, é coisa de maricas.
Ah, desculpe, não quis ofender,
não quis dizer isso, retiro,
ou melhor, foi isso mesmo, seu bundão,
sempre respeitei sua opção,
e não é agora que vamos começar com firulas,
isso nunca foi caso para frescuras,
e os últimos trocadilhos
eu também não retiro.
A saúde vai mais ou menos,
sempre um pouco mais para menos,
mas, já disse, não guardo receios.
Antes de morrer, o Leminski
escreveu que a vida tinha virado moléstia crônica.
Ainda mais nesses tempos de medicina biônica.
Viver e viver e mais viver,
viver é vício que fissura.
E depois de viver tanto, viver não tem mais cura.
Já não há como perder o desvario de viver.
Condenada sem culpa nenhuma,
treme doente de medo a morte.
Pra quem sobra, boa sorte.
Ao invés de ficarem se perguntando
se há vida depois da vida,
deviam instituir uma pesquisa
sobre a sobrevivência do corpo
à morte da consciência.
Isso sim dava uma puta ciência.
A exata ciência de que se precisa
para compreender os nossos dias.
Rsrsrsrs
Que dia é mesmo hoje?
Ah, é segunda.
Segunda-feira, segura a fera.
E o fórum, em pé de guerra?
Olha o sol, é o sol de novo,
pulando pela janela.
Quem diria que não faz muito
parece que chovia em todo o mundo,
até você, lembra?, até você chovia!
E o sol vai separando cuidadosamente as coisas,
como as figuras sobre um álbum,
vai inscrevendo na legenda nomes de batismo,
redimindo o que eram meros feixes de indivíduos.
E cada um na sua solidão obrigatória
parece comburir
na luz que lhe é própria.
Sempre vai existir a beleza,
pois tudo almeja a escapar de si, mas sem se distrair,
tudo almeja a fundir-se, mas para falar mais de si,
como num dia de sol.
Ai, aquela manhã cinzenta parece ter sido ontem,
como o velho de ontem já parece tão longe!
E o de amanhã, então,
quem vai conseguir enxergar a tamanha distância?
É, faz muito,
muito tempo que não vejo o mundo
do lado de fora do esquadro
desta janela, deste quarto,
acho que já está na hora,
como está chegando a hora
de você ir embora.
Então, levanta,
apanha tua manta,
vamos sair
e dar uma volta.

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